Participei nesta semana do 2º Encontro da FEBTUR — Federação Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Turismo — em Porto Seguro, um evento que reuniu cerca de 100 jornalistas e comunicadores de 21 estados brasileiros, além de participantes do Uruguai, todos conectados por algo em comum: a vontade de discutir, fortalecer e divulgar o turismo brasileiro de forma crítica, colaborativa e apaixonada. Mais do que a programação, duas coisas me chamaram muito a atenção.

A primeira foi a potência do pertencimento. Mesmo com perfis, idades e trajetórias diferentes, era perceptível a construção de uma comunidade genuína, acolhedora e extremamente engajada em pensar destinos, pautas e desenvolvimento turístico. A segunda foi perceber como o turismo é narrado por quem vive os territórios. Muitos ali não apenas escrevem sobre localidades ajudam a construir a reputação e os imaginários desses lugares. Foi nesse contexto que tive a oportunidade de falar sobre Turismo Esportivo, um segmento que cresce fortemente no mundo, mas que ainda costuma ser reduzido à ideia simplista de torcedores viajando para assistir jogos ou para atletas participarem de eventos esportivos, mas temos muitas outras camadas, sem falar num segmento do turismo que vem crescendo fortemente em todo o mundo, mas a minha abordagem foi com a intenção de mostrar oportunidades de pautas, insights, e como o esporte pode desenvolver localidadese discorri dentro do tema: Do Jogo ao Destino: como  esporte cria narrativas para o Turismo.

A ciência do turismo é muito mais do que visitar, segundo Chias (2007) o turismo lida com a expectativa de desfrutar felicidade que move pessoas a eleger um destino em que ficarão por um tempo, buscando bem estar e acúmulo de de experiências no contato com recursos culturais e naturais que geralmente não conhece. No caso, o Esporte, transforma localidades em símbolos culturais e lembrança de feitos específicos. Já quando nos debruçamos sobre o conceito ou melhor os conceitos do Esporte temos infinitas camadas, pois o mesmo representa a sociedade, traduz um estilo de vida, é possibilidade de inserção social, uma demonstração da nacionalidade, uma possibilidade de lazer, retrata emoções, comportamentos e coletividade, onde vemos uma micro sociedade representada e mais do que nunca, no nosso caso um fato social que perpetua a cultura local. E esse esporte tem dimensões de lazer, educação e performance, o que muda o formato de abordagem e envolvimento dos personagens.

Destaquei que o  esporte faz pessoas viajarem sem falar de viagem, com ou sem evento. Já percebeu que as pessoas falam: “ Tô indo para maratona de Nova York e não Tô indo para Nova York correr uma maratona”, essa fala não é pura inversão da ordem da sentença é que fica mecânico o evento como importante. E o segmento de turismo tem mostrado números interessantes como os da imagem abaixo:

O turista esportivo raramente compra apenas ingresso: ele compra rota, companhia, identidade, souvenir de lembrança e conteúdo para compartilhar.

O que se tem visto é que o no caso do torcedor ele não viaja sozinho, tem carregado a família, onde pais, filhos e gerações transformam o evento em memória compartilhada e na maioria das vezes com dinheiro do pai. Ex: Pai vai correr maratona da Disney, escolhe esse evento para coincidir com lazer para todos da família.  No caso de grupos, amigos, assessorias esportivas e torcidas tendem a fazer tudo junto, conseguir pacotes e produzem relatos, imagens e reputação do destino. Mais do que fotos eles correm atrás de vivências.

No caso de Atletas como ativo turístico temos a possibilidade de museus pessoais e exposições com itens raros ou até mesmo o seu local de origem valorizando sua história, como a de Messi em Rosário, sua cidade natal, passou a atrair mais visitantes interessados em consumir partes simbólicas de sua trajetória. Depois da conquista da Copa do Mundo, Messi não impactou apenas o futebol norte-americano. Sua presença ajudou a consolidar Miami como um hub global do futebol e turístico também com a valorização do clube e qualidade do espetáculo, americanos e latinos querem assistir um jogo do Inter de Miami, haja visto os números com o aumento da ocupação hoteleira para 74% e de 23% a mais de argentinos visitando a cidade. Inclusive de celebridades: https://www.youtube.com/watch?v=TtzLraJOAe0

O turista não quer apenas assistir ao jogo, ele quer viver a narrativa. A casa do ídolo. O estádio. O mural. O bairro.

Já quando falamos dos estádios, antes locais de jogo, estes aumentaram sua utilidade como arenas multiuso, mas são palcos de museus, eventos especiais, tours, restaurantes, festas e até mesmo assistir ao jogo e por vezes com oportunidade premium. O Estádio deixa de funcionar somente em dias de jogo otimizando cada vez mais sua receita.

Ao analisarmos modalidades esportivas também vendem destinos, pois certos esportes se confundem com determinadas localidades. Como o ciclismo na França e Itália, o surfe em Nazaré, Hawai, Austrália; o rafting em Socorro, Brotas, entre outros. Algumas práticas de aventura remetem imediatamente a destinos específicos, onde a geografia deixa de ser apenas cenário, ela passa a fazer parte da identidade esportiva. Além disso, cresce cada vez mais o mercado de clínicas, camps esportivos e intercâmbios ligados ao esporte, pois eles tem um apelo com chancela de times/ídolos, intercâmbio cultural e de línguas, sem falar que muitas vezes familiares acompanham ou tem uma melhor compreensão do benefício e facita a “compra” dos pacotes, tem um objetivo e um ganho maior do que “viajar” somente. O jovem por outro lado, não compra apenas treinamento, compra a sensação de viver o ambiente do esporte profissional.

Os exemplos acima mostram que o esporte se transforma em motivador de viagem mesmo sem existir um megaevento envolvido.

É sabido como eventos esportivos movimentam hotelaria, alimentação, transporte e comércio, mas também movimentam reputação. Por exemplo uma corrida, transforma a cidade em um percurso narrativo, quando pelo caminho vemos os monumentos, os bairros, a paisagem, a acolhida da população. E temos alternativas de todos os tipos, desde uma Maratona de Londres a maior do mundo, super séria, e por outro lado uma Maratona de Medoc que é pura diversão. Vale ressaltar que atletas amadores começam a descobrir competições audaciosas sob a ótica de performance, mas também sobre a ótica de beleza de paisagens para definir a próxima escolha de inscrição. E quando falamos de competições infantis e/ou de paradesporto é importante compreender que temos um número considerável de “torcedores” dispostos a acompanhar e literalmente torcer e apoiar os atletas, gerando um número maior de turistas, digamos direto e indiretos.

Outro ponto fundamental é que, em especial em mega eventos, sempre chegam acompanhados de discursos sobre infraestrutura, mobilidade e desenvolvimento, mas existe uma pergunta essencial: “O que continua funcionando quando as câmeras vão embora?”. É preciso auditar esse legado, checando: ética dos contratos,   orçamento público; impactos urbanos e sustentabilidade, uso posterior dos equipamentos, acesso da população, etc.

Creio que deixei todos com provocações de como o Turismo Esportivo pode ser melhor utilizado pelos destinos e como pode ser pauta mais ampla por parte deles, afinal Esporte divulga destino e vice-versa.

E você já tinha percebido a potência do TURISMO ESPORTIVO ??!!

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